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Movimento e Instituição

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Seguindo um caminho natural, nossa arte se institucionalizou e transpôs inimagináveis gerações, consolidando-se até nossos dias

 

Há muitos séculos nascia a arte da qual temos o privilégio de poder desfrutar hoje. Naquela época, os Ainu - nativos japoneses que mantinham semelhanças aos caucasianos e que vinham sendo expulsos para o Norte do Japão -, juntaram-se a descontentes do regime feudal e refugiaram-se em aldeias ocultas na floresta dando origem aos Shizen – povos formadores das quatro aldeias ocultas na floresta (kawa, Yabu, Tayo e Yama) que passaram a viver em contato com a natureza -. Nossa arte descende da aldeia Kawa. Para sobreviver a ataques, estes aldeões passaram a aprimorar o sistema de defesa utilizando o que dispunham na época: ferramentas de trabalho no campo e o próprio corpo. A premente necessidade de proteção de seus entes queridos deu origem a um movimento social que foi se estruturando ao longo do tempo, gerando culturalmente uma linguagem própria (“Shizen-go”), uma religião própria fundamentada no culto às energias da natureza ("O-Chikara”), dezenas de disciplinas físicas e mentais, além de um sistema militar de hierarquia vertical que objetivava criar homens honrados, compromissados e responsáveis.

“O movimento surge a partir de situações de instabilidade, longes do equilíbrio. O movimento tem em seu nascedouro a figura de um líder carismático e caracteriza-se por grande generosidade de todos onde o consenso emerge espontaneamente com um mínimo de organização onde as máximas valorativas refletem o caminho a ser perseguido por todos de maneira fluida.”
Leonardo Boff

Arnold Toynbee disse que “a gênese de uma civilização é a passagem do estático para o dinâmico de maneira espontânea, agregando-se influências da civilização anterior ou simplesmente pela desintegração da mesma e dá a este padrão o nome de “desafio-resposta”. Desafios induzindo à respostas criativas. Este processo vai se consolidando através das bens sucedidas respostas num processo contínuo de forma que cada resposta adequada provocará novo desequilíbrio que ensejará novos ajustes.  Esta civilização atinge seu apogeu e tende a normatizar-se,  a criar poderes, hierarquia e instala-se a rotina, passando a institucionalizar-se com perda de vigor cultural e flexibilidade. Esvai-se a explosão do novo e instala-se a repetição, pois o movimento significa mudança enquanto a instituição permanência.” Desta forma, as civilizações tendem a prosseguir da formação ao desenvolvimento; do desenvolvimento ao apogeu; do apogeu ao colapso, até consumar-se sua desintegração como tal. Paralelamente a este processo de expansão e declínio civilizacional, brota novo movimento a partir de pequenos grupos entusiásticos, portadores de uma nova visão e proposta;  redundando num processo cíclico de gênese e desintegração.

Seguindo este caminho natural, nossa arte se institucionalizou e transpôs inimagináveis gerações, consolidando-se até nossos dias. Entretanto, apesar de institucionalizada, nossa arte sobrevive bem longe da aldeia Kawa, transformando-se em uma sociedade cosmopolita que crê nos vínculos de uma natureza que desconsidera a mera geografia porque nos tornamos cônscios do propósito transformador que integra. Recentemente, sensei Juliana mencionou em franco e denso texto intitulado “Artes mal compreendidas – herança do final de uma era...” que: ”Já podemos nos considerar uma espécie em extinção, e se não em completa, num processo degenerativo, onde o que nos resta será; ao não vencer e superar esse processo, uma genialidade decadente buscando os últimos recursos para comunicar e transmitir as últimas palavras antes que a surdez cultural chegue aos ouvidos das gerações futuras.” Contudo, na minha humilde percepção, nossa instituição se revitaliza na medida em que se sustenta pelo carisma, mantendo o encantamento e o mistério do movimento de sua gênese a séculos passados. Renova-se pela criatividade ao depreender que a distância não exprime categoricamente algo intangível ou indisponível.  Faz pensar, educa e nos modula ao essencial na vida. Molda-nos a um viver reflexivo e cooperativo demonstrando existir o espírito do movimento dentro da instituição onde o novo é capaz de emergir e fluir em harmonia com a perenidade das “máximas valorativas” de outrora. Quero acreditar que o legado deste vasto e valiosíssimo conhecimento merece orientar a nossa jornada e a das futuras gerações; jornada esta que merece ser evolutiva e não apenas existencial. Quero convencer-me de que se trata de um novo desafio a procura de respostas...

“Bendita a primavera da vida, breve, cujo sopro tudo atravessa!
A forma desaparece enquanto o ser para a vida desperta.
Gerações se sucedem no esforço de evoluir.
Espécie produz espécie, em tempos que não têm fim.
Mundos inteiros se erguem e declinam!
Mergulha nos encantos da vida, ó flor,
na ourela da primavera; louvando a bondade do Eterno.
Aproveita tua curta existência. Acrescenta a ela, criativa,
também o teu óbulo; breve e hesitante.
Sopra, o quanto agüentares,
a tua parcela de vida ao dia eterno!”

Bjornstjerne Bjornson

Referências:
BOFF. Leonardo, O despertar da Águia (O dia a dia simbólico na construção da realidade), São Paulo, Ed. Vozes, 1998
CAPRA. Fritjof, 0 Ponto de Mutação, São Paulo, Ed. Cultrix, 1982.

 

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Você sabia?

A história da cultura japonesa é repleta de episódios com a espada. De fato, um dos três objetos de posse sagrados de um imperador, era a espada. Os outros dois são a jóia e o espelho. A lenda antiga do xintoísmo diz que uma divindade mergulhou uma kataná no mar e das gotas d’água que pingaram da ponta nasceram as ilhas do Japão.