Comentário ao texto: “E tudo pode ocorrer, ninguém está livre!...” de autoria do Shidoshi Jordan Augusto.
Neste texto o shidoshi aborda a respeito da incongruência vivencial dos humanos que vivem numa permanente sensação de desconforto - sempre a procura de algo - e são tomados pela consternação frente às ocorrências naturais da vida. E a morte é uma delas. Já ao nascermos, dispara-se a contagem regressiva...
Ontem assisti ao filme: “Separados pelo Destino”, inspirado numa história verídica; ao lado de minha esposa. Um terremoto de 23 segundos arrasa a cidade de Tangshan, na China e mata 240.000 pessoas. Dentre estas, a família protagonista perde o pai e a mãe se vê em uma horrível armadilha do destino. Terá que decidir se salva um ou outro filho - um casal de gêmeos - porque ambos estão soterrados por uma única laje e, dependendo do lado que for erguido, o lado oposto será pressionado... E ela é obrigada a tomar a pior decisão de sua vida: escolher quem viverá e quem morrerá. Todo o drama se desenrola a partir desta decisão presente na vida desta mãe por toda a sua existência...
Quem é pai pode tentar dimensionar a dor de se ter que enterrar um filho. Meus pais passaram por isto. Levaram seu filho com câncer cerebral para tratar-se no Rio de Janeiro na década de cinqüenta e lá a criança faleceu. Para burlar a lenta burocracia de liberação de corpos para translado, eles trouxeram seu filho morto no colo em uma longa viagem aérea até sua cidade natal. Imagine segurar um cadáver frio – um filho - durante horas e tendo que fingir que o mesmo estava tomado por um profundo sono... Imagine o que se passou por suas cabeças naquela interminável viagem, privados do convívio paternal e maternal e com a dificílima tarefa de se passarem por atores naquela mórbida situação. É algo que vai muito além de nosso entendimento. Durante toda a minha convivência com meu pai, ele sempre se esquivou de falar sobre seu querido filho que se fora aos seis anos de idade, transbordando de potencial, de alegria e de vida. Minha mãe, ao contrário, permanece sob aquele véu de infelicidade perene fruto da incapacidade de sobrelevar o destino. Ela acostumou-se com a perda, mas nunca aceitou que aquela vidinha sob seus cuidados tenha lhe sido arrancada dos braços, passados cinqüenta anos. A profusão de sentimentos que ocorre em situações limítrofes vem transformar nossas vidas em um golpe único e certeiro. São inúmeros os despreparados para as naturais “armadilhas” do destino; estes se tornam prisioneiros do tempo. Prisioneiros que esvaziam seus sonhos e cessam seu processo evolutivo pela estagnação temporal. Cativos que se incapacitam para a possibilidade de ver a vida com novos olhos, com forma e conteúdo vivencial renovado onde a mudança se processa e a descoberta se avizinha.
Tudo é instável, tudo está ligado, tudo é, ao fim, compreensão de que “a vida nada mais é que um suspiro!”
Oração Indígena
(Xamã)
Ó grande Espírito, cuja voz eu ouço nos ventos
e cujo sopro dá vida ao Mundo, ouça-me!
Eu venho a você como vem uma criança:
sou pequeno e fraco e preciso da sua força e sabedoria...
Deixe-me sempre perceber a beleza da vida
e faça meus olhos reterem o vermelho-violeta do por do sol.
Faça minhas mãos respeitarem as coisas que você fez,
e meus ouvidos sempre prontos para ouvir a sua voz...
Faça-me sábio para que eu possa conhecer o que você ensinou ao mundo,
a lição que você escondeu em cada folha e em cada pedra...
Eu peço forças, não para ser superior aos meus irmãos,
mas para combater o meu maior inimigo:
eu mesmo...
Faça-me estar sempre pronto para ir a você com as mãos limpas
e olhá-lo direto nos olhos,
para quando a vida terminar, assim como o dia termina com o crepúsculo,
meu espírito possa ir ao seu encontro sem sentir vergonha...








